Eu deveria ter uns 12 anos, como naquela época não tinha a maldade de hoje, 12 anos ainda era criança. Era um curuminzinho que corria nuzinho por cima dos troncos de paus, pulava das pedras no rio, caçava... Um dia saí com meu pai pra pescar, cheio de danação correndo com cachorro, ele dizendo te aquieta e eu não ligava mesmo, o velho já ficou irritado, ele dizia que eu ia me machucar e nem ouvia.
Fui e voltei correndo. Nesse dia pegamos só umas "piabinhas", mas na volta achamos 2 jabutis, pegamos e levamos pra janta. A vida na mata era assim, a gente não acumulava comida não, não existia esse negócio de geladeira. Caçava hoje, pescava, no máximo mamãe salgava um peixe, uma carne de Catitú (porco do mato) pro outro dia e assim ia.
No outro dia acordei cedo como de costume, o teu tio Temista tava fazendo uma gangorra, eu pulei e me atrepei em cima de um girau e fiquei olhando. Ele batucou, batucou e deixou de mão. Eu teimoso, não sabia se já estava pronta fui bulinar, era malino que só! maluvido! me atrepei e rodopiei, nisso veio uma farta e entrou bem na minha coxa que atravessou.
Minha filha! aquilo doeu! eu já desatinei chorando, chorando, entrei em casa num desespero! Mamãe tava no quintal debaixo de um pé de manga pilando um arroz. Quando ouviu meus gritos já largou a mão de pilão e saiu desesperada pra saber o que era. Não existia esse negócio de médico, na vila mais próxima que papai ia uma vez no mês buscar açúcar e saco pro café tinha um farmacêutico, mas era longe! coisa de umas duas horas de caminhada, mas papai tinha um cavalo velho ele me colocou em "riba" e fomos.
Cheguei lá me queimando de febre. Não tinha esse negócio de anestesia, eles me colocaram em cima de uma mesa, daí pediu pra reparar e puxou a farpa. Minha filha! ô dor miserável! Deus me livre, pensei que fosse morrer! aí ele colocou um dreno de algodão dentro, passou um medicamento e voltamos. Chegamos em casa eu fiquei todo desconfiado achando que ia apanhar, fiquei todo mofino. Mamãe fazia limpeza todo dia com chá da casca do caju pra não infeccionar e amarrava mentruz em cima pra sarar logo. Eu ia uma vez a cada 15 dias na vila pra trocar o dreno, do meio pro fim mamãe mesmo fazia, o rapaz que era farmacêutico era da capital, era de São Luís (MA). Ficou doido pra me levar pra morar com ele na capital, mas papai não deixou, ele disse "não esse é pra trabalhar comigo na roça" quem sabe eu seria alguém hoje, alguém estudado,mas teu avô não deixou. Ta vendo aqui na minha perna? ainda tenho a cicatriz.
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