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O KRAU KRAU

 O KRAU KRAU


— Pai, conta a história do Krau krau?

—  Krau krau?!

—  É! aquela de quando o senhor era criança e morava nas matas e uma noite um bicho medonho e gigante, maior do que a casa, apareceu na clareira? 

O velho pai deu uma risadinha sacana e perguntou:

— A minha filha ainda se lembra disso?

Aquela história de ninar nunca saíra da mente da menina que nascida em casa com ajuda de parteiras, na noite da última chuva do inverno amazônico, e que cresceu ouvindo as histórias do bisavô “Aprígio o índio”, que era conhecedor das matas, dos caminhos e dos rios da amazônia maranhense (e que havia enganado os karaí que por ali passaram em busca de ouro). Ou as histórias do tio Eustáquio Carueira, “preto velho dos dentes de prata” que se transformava em porco caititu, tronco de árvores e tambores.

 Ou ainda da tia-avó, que morava sozinha, pois nunca casara, nem tinha filhos, e todos diziam que “virava onça”. Até mesmo as histórias do próprio pai que em uma noite de chuva quando saiu para caçar e matou mais jabutis do que precisava para comer, e levou uma surra do curupira! Ele acordou três dias depois com o curandeiro falando para nunca mais fazer aquilo. Para tirar da natureza somente o que precisa no hoje porque o amanhã ela proverá novamente. 

— A minha filha ainda se lembra dessas histórias de caboclo?

Repetiu a voz do velho pai, trazendo-a de volta do mundo dos arquivos da memória que aquela perguntou lhe levou. Como esquecer? Como teria esquecido da história do krau krau? que assim como tantas outras, fazia parte do imaginário que construíra a menina em sua infância? A filha não entendia o motivo da admiração do velho pai por ainda lembrar-se da história que ouvia ao dormir como um conto de fadas. Porque não se lembraria? 

O velho pai, com sua cabeça alva, óculos apoiados sobre o nariz, dá uma risadinha, enquanto balançava-se em sua cadeira feita de cipó de malva - Reflexivo, disse:

— Faz tanto tempo que minha filha foi morar para esse Rio de Janeiro a fim de estudar! já conheceu, leu, descobriu e viu tanta coisa mundo afora! Ainda queres saber dessas histórias de caboclo de beira de rio?

  O que o velho pai não sabia é que as “histórias de caboclo de beira rio”, às quais se referia, eram o que na infância embalava os sonhos da menina que criava no seu imaginário todo um universo de seres mitológicos, habitantes dos rios e das matas, fazendo dos gigantes rios um verdadeiro Panteão. Uma espécie de Orun, a morada de seres encantados que considerava serem os espíritos ancestrais dos deuses e das deusas das florestas amazônicas. 

As histórias que agora adulta, embalavam as lembranças da mulher feita, vivendo o dia a dia sendo professora e estudante. “Professora”, “Professora doutora”, “Doutora professora”. O velho pai não sabia ao certo como chamar, mas sabia que era um título importante porque ouviu no rádio e depois viu na TV. Se orgulhava por ter uma filha professora com diploma. Era a primeira da família a cursar ensino superior. Essa possibilidade veio depois que o governo da época anunciou na TV e na rádio que “o filho do trabalhador também poderia ser doutor”. O pai acreditou e apostou.

Ele era trabalhador e a filha, que já era professora com diploma, também poderia ser doutora! Imagina só, o caboclo que nunca pisou em uma escola ter uma filha doutora! Abria um sorriso largo só de imaginar. A caboclinha da amazônia, criada na beira do rio, comendo chibé com peixe e açaí, estava a caminho de realizar o sonho da família. Seria doutora! E por incentivo do pai, que ouvia na rádio sobre a Cidade Maravilhosa como lugar de oportunidades, lá se foi. Assim, sozinha, sem parentes importantes saída do interior, pegou um Ita no Norte, e como mais um aventureiro, partiu rumo ao Rio de Janeiro.

A primeira neta, a primeira sobrinha, a primeira filha. Seria também a primeira doutora das duas famílias! Era o que não cansava de dizer o velho pai para os conhecidos. Ele, que cresceu nas matas e aprendeu a ler e a escrever sozinho através de um rádio a pilhas, depois de adulto, no garimpo da Serra Pelada, de onde quase morreu de malária e viveu sob condições que dizia serem “pior do que bicho”. De onde fugiu e nunca mais quis saber de voltar, (e nem recomenda), teria uma filha doutora! 

— Sim! pai! o senhor não vai me contar a história do Krau Krau? — A voz da filha interrompeu longínquos pensamentos do velho pai.

— Ou já esquecestes? Ih! Essa memória não está nada boa, hein velhinho?! 

— Ah! Minha filha, depois da Covid-19 eu de fato fiquei um pouco prejudicado sim da memória, mas dessa história eu me lembro sim! Ixi! Eu era menino, mas me lembro como se fosse hoje! — Disse, ajeitando-se sobre as almofadas da cadeira que traziam as estampas dos times de futebol do Vasco da Gama e do Paysandu Futebol Club, clubes do coração do velho pai e para os quais a filha também torcia.

— Desse dia eu não me esqueço é nunca! Porque eu nunca senti tanto medo na minha vida! Nem no garimpo quando de lá fugi com capangas atrás de mim, por sete dias e sete noites mata a dentro. Aquilo foi de arrepiar e até hoje quando me alembro e me dá um frio que sobe pela espinha, mas nada comparado a agonia e o desespero, que foi criança ouvindo o barulho  “krau, krau, krau”, como roendo ossos, e não era osso de bicho, acho que nem de onça parecia ser!

— E era de que? de gente?? Ah! pai! conta logo! — Disse a filha já agoniada.

— Era mais ou menos Novembro, não lembro o ano, mas eu deveria ter uns 9 para 10 anos. As primeiras chuvas do inverno Amazônico já estavam começando a cair e papai, teu avô, estava perto de colher o último roçado uma roça de arroz e outra de feijão. Tinha aberto uma clareira na mata, onde fizemos um barraco de pau a pique coberto de cavaco. Era bem alto e tinha três cômodos. Uma sala gigante onde a meninada dormia nas redes e um quarto separado para os teus avós, onde tinha uma mala velha com uns papel velho, e umas roupas, um livro de São Cipriano e uma cama velha feita de palha. E só tinha porta neste cômodo. O outro era um paiol onde guardava o arroz e fazia comida. A noite estava bem clara com uma lua grande no céu que nem precisava do lampião para enxergar, clareava tudo. jantamos cedo, entramos, rezamos e dormimos.

— Minha filha, quando foi umas horas da noite, a mata ficou em silêncio, mas um silêncio que não se ouvia nem o balançado de uma folha. Ora! A nossa casa era a única na clareira da mata adentro, teu avô junto com seus tios mapearam a região todinha e o vizinho mais perto estava a uns 30 km ao norte indo de rio acima! Aquele silêncio de não ouvir um grilo, um sapo, nada! Aquilo incomodou o papai que acordou a gente para ficar assuntando. 

— Minha filha, aquele silêncio absurdo foi quebrado por um grito pavoroso de dor — Nesse momento o velho pai pareceu arrepiar-se, e a filha vidrada atenta ao que viria depois —  mas em seguida —continuou — começou a ter barulho de tudo que é bicho que tinha na mata. Tinha grito de macaco, de jabuti, de paca, capivara, sapo, grilo, cobra… e som de árvores sendo arrancadas como que pela raiz e o barulho vinha crescendo na direção da nossa casa na clareira.

— Mas vocês achavam que era o quê? 

— Ah! No começo achamos que era onça, mas o barulho de árvore caindo e o mundo se acabando foi assustando a gente, aí papai colocou todo mundo no único cômodo que tinha porta, pegou a garrucha e ficou atrás da porta. E o barulho veio se aproximando, se aproximando, que quando chegou na clareira a gente parou de ouvir o barulho de árvores quebrando e passamos a ouvir só o som como de  grandes pelos arrastando na areia e como de ossos sendo mastigados e quebrando com barulhos de krau, krau krau krau…

— Mas tinha cheiro de alguma coisa ou era só barulhos?

— Era um pitiú terrível, uma inhaca, um pixé miserável de monturo velho, de resto de carne podre que empesteou toda a sala antes de chegar e continuou se aproximando. Minhas irmãs já queriam chorar, e quando chegou bem perto, bem assim na entrada do barraco, o fedor tomou de conta geral, mas antes que atravessasse mesmo pela porta, meu pai falou: 

— Valei-me minha Nossa Senhora de Nazaré! Valei-me Nossa Senhora de MontSerrat!

— Minha filha, a coisa monstruosa parou o barulho de krau krau krau e perguntou:

— Como? 

— Aí, papai falou de novo e bem alto:

— Valei-me Minha Nossa Senhora de Nazaré! Valei-me Nossa Senhora de MontSerrat! 


— Assim que o papai terminou de falar o bicho deu um grito 

— UÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!! — E saiu correndo com o grito e o barulho, o fedor mata adentro e derrubando a árvore de novo, sumiu! A mata ficou de novo num silêncio, um silêncio, que ficou assim até o dia amanhecer.

— Mas e vocês depois disso? 

— A gente esperou o sol raiar, saímos em volta da casa pra ver o estrago da quebradeira do mato, mas estava tudo exatamente como anoiteceu. As árvores estavam normalzinhas, o areial nem pegadas tinha, aquilo deixou minha mãe muito assombrada, ela não quis mais saber de ficar ali de jeito nenhum, daí colhemos o roçado, colocamos as coisas nas costas dos animais e resolvemos morar mais perto de uma vila em outra direção, mais perto da praia, onde eu conheci sua mãe.

— Tu para de ficar pedindo pro teu pai te contar essas histórias, pois quando chega a noite tu fica assombrada, e um bora almoçar, porque o peixe já está esfriando e a brasa já apagou no fogareiro — Interrompeu a mãe avexado os dois para o almoço. 

— Tem açaí? — perguntou a filha.

— Tem.  E eu já separei o que tu vais levar para o Rio de Janeiro. 

A filha levanta satisfeita com a história, e a notícia de que teria açaí para almoçar e para levar pra casa. O velho pai também levanta satisfeito, por ver que embora tenha ido tão longe, a filha ainda valoriza, busca e reafirma as origens.


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