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Vô Jacinto e o el dourado

    Teu bisavô Jacinto, quando jovem, era um homem ruim. Ele entrava nas matas do Maranhão, ali por onde morava, matava 10 macacos e só comia um. Dizia que onde tem homem, urubu não passa fome. Uma vez, numa dessas caçadas, se perdeu na mata, saiu de lá 4 meses depois. O Curupira fez ele se perder para ele aprender a respeitar a mata e parar com essas ruindades.
— Mas o senhor não dizia que ele era índio? E índio lá se perde em mata? 
— Se perde em mata, coisa nenhuma! Ele dizia que ficou lá porque quis. Outra feita dessa, ele entrou mata adentro e voltou com uma pedra de ouro. Da pedra mandou talhar, fez um pingente e um dente, um cordão e o resto trocou tudo por cachaça e puta. Bebeu a noite todinha e contou o feito. Pagou a noitada para todo mundo, fez a festa e a alegria da galera. Depois disso apareceram uns estrangeiros indagando-o sobre onde ele tinha achado aquele ouro. Ele disse que foi à mata, que saiu para caçar catitu, seguiu o rastro deles até a beira de um rio, desse rio que dava para a entrada de uma caverna e, dentro dessa caverna, as paredes eram todas cravadas de ouro. Perguntaram se ele se lembrava de como chegar ao tal rio e se ele os levava lá; por uns trocados, ele aceitou.
    Aí, minha filha, ele era caboclo, mas não era bobo. Ele resolveu assuntar, para ver quem eram aqueles cabas e quais eram as intenções deles. Andaram um bom pedaço na mata e resolveram parar para comer alguma coisa, descansar e seguir viagem, porque só faltavam mais uns 3 dias de caminhada até o local onde achou o rio. Ali, depois do almoço, ele fingiu que estava dormindo para ouvir a conversa. E os homens que o contrataram começaram a conversar entre si. Eles eram um inglês, um brasileiro e tinham com eles mais um agrimensor. Nessa conversa, o agrimensor perguntou se outros acreditavam mesmo naquele caboclo e naquela história de ouro, e o que fariam com ele (Jacinto) se aquilo fosse verdade. Disseram que: — Ora, a gente mata e deixa aí para urubu comer. Com medo de que ele escutasse, começaram a chamá-lo para saber se ele estava ouvindo. E era aí que ele roncava alto, roncava e roncava. Deu um bom pedaço; ele "acordou", perguntou as horas e que tinha tombado no sono, mas que eles já poderiam seguir viagem. E a partir daí ele começou a avariar na mata. Ele dizia para o agrimensor: — corta 10 metros nessa direção e apontava o caminho errado. E ficaram dias dando voltas e voltas e nunca chegavam no tal rio que dava para a entrada da tal caverna. Depois de semanas, os recursos para três dias começaram a acabar; o agrimensor contraiu malária e eles tiveram que voltar. 
— Mas acabou aí, pai? Ele estava perdido, então?
— Que nada! Ele conta que, depois disso, ele voltou lá, ainda encontrou a queimada onde fizeram fogueira para passar a noite com o grupo, e contava, dando risada, de que ele fez os estrangeiros andarem semanas na mata úmida, passando bem pertinho do rio, mas que eles não viam porque o rio era encantado, a caverna era encantada e que, para entrar e sair na região desta serra, onde ficava a caverna e o rio, tinha um segredo e só quem era da mata conhecia. 
— E qual era o segredo, pai?
— Sangue. O que ele não contou para os estrangeiros era que ele seguiu os rastos dos catitus (porque eles só andam em bando), e depois que achou o ouro, esqueceu os catitus. Meu pai conta que ele, o Jacinto, disse que pegou a camisa e fez uma boroca, encheu de ouro e seguiu de volta os rastos dos catitus para sair da serra, mas que perdeu o rastro e ficou avariando na mata por dias, e não achava nenhuma caça, nada para comer, nem jabuti, que também dava muito naquela região. Ele entendeu que era o ouro que não o deixaria sair dali. Então ele deixou a boroca para trás e pegou só uma pepita, fez um corte na mão e passou em cruz no ouro para batizá-lo e conseguiu sair da mata e voltar para casa.

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